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  • Equipe SBN

Viver com dignidade é direito de todos!



No último domingo de 23 de maio a equipe do TamuJuntu esteve em mais uma ação de distribuição de marmitas a moradores de rua de Santos. Um de nossos sócio-fundadores, Juliano Frade, fez um relato emocionado e carregado de reflexões sobre o dia. Compartilhamos com você o depoimento abaixo.



Moradia, saneamento básico, segurança, alimentação e oportunidade de trabalho são direitos básicos de qualquer cidadão brasileiro, mas essa é a realidade de quem mora nas ruas.

Para essas pessoas a luta é diária: encontrar um local seguro para dormir, manter-se higienizado, alimentar-se, arrumar algum dinheiro... nada disso é fácil.

Independente dos motivos pelos quais foram parar ali, viver com dignidade é o mínimo.


Nesse domingo, tive a experiência de participar da mobilização TamuJuntu promovida pela SBN em Santos. Bruno Farinhas, líder do movimento, arrecada mensalmente doações para montar kits compostos por marmitas, sucos, sabonete, escova e pasta de dentes. Para aqueles que pedem, ele também entrega esteira de dormir, roupas, máscaras de proteção e até baralho, para garantir aos moradores de rua um pouco de diversão.


Foi incrível participar dessa ação e poder ajudar homens, mulheres, famílias inteiras vivendo sem um teto na frente de lojas comerciais, em uma calçada dura, úmida e suja.


É só parar o carro e perguntar quem quer alimento e eles sentem a maior gratidão por aquela comida quentinha e bem-feita e se deliciam com o suco gelado preparado com enorme carinho pela rede de apoiadores que o Bruno juntou.


Numa das esquinas conhecemos dois homens. Danilo, morador de rua há 20 anos, que estava lendo um livro de ensinamentos religiosos e logo se aproximou com palavras de agradecimento e com muita consciência de que estar ali era o resultado de más escolhas em sua vida, já que ele era dependente de álcool.


O outro morador era Franco, 49 anos, psicoterapeuta formado pela UNESF, já havia ajudado mais de 200 pessoas participantes do NA (Narcóticos Anônimos), mas por algumas recaídas no uso de drogas acabou voltando a morar na rua e estava ali dormindo naquela esquina há um ano.


Perguntei do que ele sentia mais falta, ele disse que era de um quarto para dormir bem, onde pudesse guardar suas poucas coisas em um local seguro e poder tomar banho quando quisesse. A comida vinha em segundo plano, por incrível que pareça. Fiquei surpreso com essa revelação, mas depois percebi que de fato ter um teto não era algo tão fácil de arranjar na situação dele, que não tinha familiares vivos, se sentia sozinho nesse mundo.


Franco vive de reciclagem, coletando coisas do lixo para ganhar de 40 a 50 reais por dia, mas sofre de dor nas costas por conta de duas hérnias de disco não tratadas. Ele mal conseguia caminhar para se aproximar do carro quando paramos para distribuir as marmitas.


Estava depressivo, mas acolheu a gente com um olhar doce e um sorriso de gratidão no rosto, tanto pela comida, quanto pela conversa que tivemos. Até comentou que achava que já me conhecia de algum lugar e eu brinquei que poderia ser de outras vidas, rimos juntos.


Ele nos contou de sua vida solitária, da sua depressão e da falta de vontade de viver, mas que não tinha coragem de tirar a própria vida. Falamos sobre fé e esperança, mas para ele realmente já não há muito onde se apoiar.


Franco disse que mesmo trabalhando com muito custo (por conta das dores nas costas) para ganhar um pouco de dinheiro, muitas vezes ele ainda busca nas drogas, no cigarro e por vezes na Coca-cola ou no sorvete, pequenos momentos de prazer que o ajudam a esquecer sua condição precária de vida.


Conversamos sobre propósito, fé e o que era necessário para ele seguir em frente e fiquei feliz quando ao final da conversa ele mencionou um plano de alugar um quarto com banheiro por 400 reais no ferro velho onde já havia trabalhado. Ele poderia juntar essa quantia em 10 dias trabalhando com reciclagem e no restante do mês pouparia para comprar uma TV e assistir as Olimpíadas do Japão. Fiquei arrepiado ao ouvir seu plano, aquilo era um próximo passo e uma luz no fim do túnel para quem começou a conversa dizendo que não tinha mais motivação nenhuma de vida.


Essa realidade é muito difícil. Em outras esquinas, outras histórias, livros de esperança, gestos de gratidão por uma roupa nova ou uma esteira para dormir no chão seco, um comentário de finalmente poder ter uma boa pasta para escovar os dentes ou um sabonete para se limpar, pois há muitos dias estava com mau cheiro. É algo tão básico para mim, mas de imensa importância para eles.


Algumas reflexões disso tudo só reforçam lições já aprendidas:


  • As escolhas da nossa vida vão direcionar nossos caminhos;

  • Propósito e motivação de vida são essenciais para seguir em frente;

  • Fé e esperança são as ferramentas de consolo para seguir na luta diária;

  • Gratidão pela vida, respeito pelo outro e colaboração nos ajuda a viver em comunidade de forma segura.

Ajudamos apenas 30 pessoas, mas no caminho encontramos outros colegas fazendo o mesmo. É muito bom ver que há sempre pessoas ajudando e aumentando o alcance deste tipo de ação, mas é muito triste saber que muitos não sairão daquela realidade.


O que fazer para mudar isso?


Será que essas pessoas teriam feito escolhas diferentes se tivessem tido acesso a uma boa educação?


Ou se seus pais pudessem ter dedicado mais tempo para dar acolhimento, amor e carinho?


Se por acaso tivessem aprendido sem muita dor a conseguirem um trabalho digno para conquistar um olhar de respeito?


Não sei dizer, talvez nem sejam esses os motivos, só sei que essa realidade precisa mudar e que todas as pessoas merecem viver com dignidade.


Continuo na minha jornada de vida com muita humildade e empatia. Nesse dia de mobilização, onde eu dei um pouco de alimento, conforto e acolhimento, tenho certeza de que recebi muito mais do que doei, me senti muito vivo e com coragem para lutar ainda mais por uma sociedade mais justa.


Desejo que o TamuJuntu cresça muito e que possamos ter cada vez mais pessoas promovendo a convivência com relevância.


*Juliano Frade é netweaver e sócio-fundador da SBN.

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